Archive for Abril, 2010

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Abandono

Abril 26, 2010

Não digas nada, deixa apenas

as mãos entregues ao calor das minhas

e olha-me nos olhos como quando

nos fitávamos, pássaros surpresos

do próprio voo, adolescente e luminoso.

Ambos sabemos desde há muito: a vida

é uma longa paciência e não há forma

de viver ao abandono dos que amamos.

Sobrevivamos, pois, no fio dos dias

que nos restam ainda, se é que o tempo

nos favorece como dantes.

E mantenhamos as mãos coladas,

olhares fitos um no outro, meu amor.

Torquato da Luz

Imagem: Jenna Morrison

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Intimidade

Abril 25, 2010

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

Imagem: Vladimir  Dunjic

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Poema melancólico a não sei que mulher

Abril 10, 2010

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram.
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido.
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão.

Miguel Torga

Imagem: Yeda Arouche