Archive for Fevereiro, 2014

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Poema do eterno retorno

Fevereiro 28, 2014

Há o teu rosto dentro do teu rosto: único e múltiplo.
As tuas mãos de outrora nas tuas mãos de agora
Há o primeiro amor que é sempre o último
antes do tempo ou só depois da hora.

E vinhas de tão longe. E era tão fundo.
Eu conheço-te. E era por mim. E era por ti. E era por dois.
E havia na tua voz o princípio do mundo.
E era antes da Terra. E era depois.

Manuel Alegre, in Livro do Português Errante (Pub. D. Quixote, 2001)

Arte por Aram Nersisyan

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Coisas tuas

Fevereiro 26, 2014

Levo coisas tuas
para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso…

Margarida Faro, in 44 Poemas, Fonte da Palavra, 2011

Arte por Arline Wagner

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Dei-te o meu corpo como quem estende

Fevereiro 24, 2014

Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos – tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos – nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

Maria do Rosário Pedreira

Arte por Andy Denzler

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Conto de Fadas

Fevereiro 23, 2014

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras duma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa do conto: «Era uma vez…»

Florbela Espanca  in Charneca em Flor

(Liv. Gonçalves, Coimbra, 1ª ed., 1931) 

Arte por Carlotta Castelnovi

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Talvez não saibas

Fevereiro 22, 2014

Talvez não saibas
Mas dormes nos meus dedos
De onde fazem ninhos as andorinhas
E crescem frutos ruivos e há segredos
Das mais pequenas coisas que são minhas

Talvez tu não conheças, mas existe
Um bosque de folhagem permanente
Aonde não te encontro e fico triste
Mas só de te buscar fico contente

Ao meu amor quem sabe se tu sabes
Sequer, se em ti existe, ou só demora
Ou são como as palavras essas aves
Que cantam o teu nome e a toda a hora

Talvez não saibas, mas digo que te amo
A construir o mar em nossa casa
Que é por ti que pergunto e por ti chamo
Se a noite estende em mim a sua asa

Talvez não compreendas, mas o vento
Anda a espalhar em ti os meus recados
E que há por do sol no pensamento
Quando os dias são azuis e perfumados

Oh meu amor quem sabe se tu sabes
Sequer, se em ti existe, ou só demora
Ou são como as palavras essas aves
Que cantam o teu nome e a toda a hora

Joaquim Pessoa

Arte  por  Inna Tsukakhina

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A tua boca

Fevereiro 19, 2014

Beijo os teus dedos de sol e vento,
E fico dividida entrte o sabor a sal
E o poema escrito nas linha da tua mão.
Beijo os teus lábios e a brisa pára
Para segredar-me que o mar é doce,
Enquanto fecho o livro de búzios
E o poema na volúpia naufraga

Manuela Alves,

in Colectânea de Poesia Contemporânea da Beira Interior 2001 (Kreamus, 2001)

Arte por Kurt Van Wagner

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Dia 242

Fevereiro 18, 2014

Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa, in Ano Comum

(Litexa, 2011, Editora Edições Esgotadas, 2ª ed, 2013)

Arte por Vincent Xeus