Archive for the ‘Cláudio Cordeiro’ Category

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A solidão da noite

Julho 11, 2014

A solidão da noite
toca violoncelos no meu peito.
O corpo recebe o rumor
de uma concha do mar.

Beijo as grinaldas
que derramas no meu rosto.
As palavras misturam-se
em lamentos desfolhados.

Consagro à madrugada
as cinzas dos pecados que pressinto.
Não há dúvidas que o amor
é uma sensação contraditória.

Cláudio Cordeiro, in Um Tudo Nada Água (Lua de Marfim, 2012 )

Arte de Angela Felipe

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Tronco que respira

Fevereiro 11, 2014

A terra aclara o tronco
que respira o teu olhar.
O espaço acalenta a feliz nudez
de um jardim que repousa.

Ao fundo a água sossega
a transparência das nuvens dobradas.
Precipitam-se as imagens vivas
dos animais do céu…

As árvores aproximam a minha boca
do teu corpo presente.
Num impulso o sol aproxima-te
da minha água.

Bebe, sacia a tua sede de mim.

Cláudio Cordeiro, in Um tudo nada água (Lua de Marfim, 2012 )

Arte por Matteo Arfanotti

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Última volta

Dezembro 28, 2013

Completo a última volta
dos teus olhos.
Equilibro o teu rosto suave
na seda que desliza.

A minha sede é um círculo
de luz que me entregaram a beber.
O suor da minha saliva é uma estrela
que se espuma no presente.

Não quero imaginar o nada
que serias sem mim…
Eu sem ti sou tudo mais.

Não vou dormir enquanto
não acordar à tua porta.

Cláudio Cordeiro, in UM TUDO NADA ÁGUA (Lua de Marfim, 2012)

Arte por  Emilii Wilk 

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Alma em vibração

Agosto 19, 2013

Parece-me ver sorrir de plácida
brancura o teu rosto ainda agora
esquecido da outrora primavera.

O meu rosto não é o rosto
de ninguém que finge ter no peito
o segredo da felicidade da alma.

O meu rosto e o teu
são dois rostos da mesma face.
Eu beijo-te nos olhos
a nobreza imaculada dos meus astros.

Dá-me a tua boca
para que possa ouvir o som
que ecoa nas letras das minhas palavras
como uma essência que alma em vibração.

Cláudio Cordeiro (a publicar)

Imagem: Douglas Hofman

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Sombra do teu olhar

Agosto 18, 2013

Agora, que retirei uma sombra do teu olhar
a terra parece‐me absurda.
A luz do horizonte expandiu em segredo
uma paz aniquilante…

Não sei como viver um sol
que me sorri rosa!
Amanhã, amanhã talvez consiga
suportar esta sede sombra
nas cores coloridas.

Sigo de pé as ondas que me chamam
pelo mar…

Cláudio Cordeiro,  in UM TUDO NADA ÁGUA (Lua de Marfim, 2012)

imagem:  Behrooz Haghighi

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Inocência

Julho 26, 2013

A inocência do teu corpo é um pano branco.
A carne é crua num corpo intacto de plena luz.
Nu e intenso é o teu olhar despido de fogo.
Estou sóbrio na noite em que murmuro o teu
nome puro.

Sei que a água não é o pão que como
no teu corpo virgem.
A tua inocência é o fruto delicado
que pressinto na ponta dos meus dedos.

Respiro lentamente a fome dos teus braços.
Sinto falta de beijar o sol da tua boca…

Cláudio Cordeiro,

in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS,(Coisas de Ler, Ed., 2012)

Imagem: Vladimir Dunjić

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Boca esquiva

Junho 18, 2013

Quero‐te ver numa boca esquiva.
Escuto o vazio do silêncio
em segredo…

Não escrevo porque gosto
de sol.
Escrevo porque amo sentir
o calor dos teus lábios.

Escrevo‐te palavras incertas
com uma certeza determinada.
Nado para fora deste mar…
Preciso de sentir a terra firme.

Cláudio Cordeiro

Imagem: Caroline Westerhout